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O sorriso do meu amor.

                                                   ANÁLISE

 Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,

E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me

Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
             Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.      

                                                            (Fernando Pessoa)

A vida só parece bem real quando achamos que é um sonho. Mas para isso passamos tantas coisas, atravessamos desertos e então podemos encontrar um pequeno lago, algumas palmeiras, um poço de pedra e uma sombra fresca para deitar o rosto.

E fechar os olhos… com a ilusão de só sentir e não acordar jamais.

Termino esse posto com outro texto do poeta já citado.

Põe-me as mãos nos ombros…
Beija-me na fronte…
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei por quê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo…
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.

Quando você for embora
Moça branca como a neve
Me leve, me leve

Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração

Se no coração não possa
Por acaso, me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar

E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já vivo em seu pensamento
Moça de sonho e de neve
Me leve no esquecimento.
(Me leve, Fagner/Ferreira Gullar)

Gosto dessa música por várias razões. Primeiro pela própria beleza. Depois pela simplicidade com que os compositores, Fagner e Ferreira Gullar conseguiram expressar um sentimento profundo e tão característico do nordestino, o amor sem orgulho, um sentimento típico do sertanejo que os portugueses chamam de cismar.
Outro motivo é que a música me faz lembrar um tempo bom, mas não com a tristeza da época, a saudade que foi sentida ou a turbulência de quando vivemos um sentimento confuso.
Mas com a alegria da lembrança.

Triste é nada viver.

praying

Existe maior privilégio que falar com a maior autoridade que existe? O ser mais sábio, mais justo e mais amoroso? Tem gente que acha que precisa muito para falar com Deus, não precisa tanto assim. Só se desligar do mundo e ser humilde. Gilberto Gil sintetiza isso numa letra bem interessante. Ele nunca expressou muita religiosidade nas suas letras, mas uma visão do mundo pacífica, humana. Ele fala da humildade, de esquecer nossas ambições, nosso egoísmo, para lembrar daquele que faz tanto por nós. Tenho que lamber o chão/ Dos palácios, dos castelos /Suntuosos do meu sonho. Quantos sonhos suntuosos e o que fica para o Criador? Ele não é primariamente proprietário das nossas vidas e do nosso tempo? Quando disso devolvemos a Ele?

Bem, veja a letra inteira:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.

(Se eu quiser falar com Deus, Gilberto Gil)

No entanto, sobre esse assunto quem fala com mais propriedade foi o Filho de Deus. Ele,  Jesus,  disse como falar com Deus:

Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos outros. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: eles já receberam a sua recompensa.

Mas você, quando orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que não pode ser visto. E o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa.

Nas suas orações, não fiquem repetindo o que vocês já disseram, como fazem os pagãos. Eles pensam que Deus os ouvirá porque fazem orações compridas.

Não sejam como eles, pois, antes de vocês pedirem, o Pai de vocês já sabe o que vocês precisam.

(Mateus 6:5-8, Bíblia na Linguagem de Hoje)


Quem consegue se esvair da rígida costra que o cotidiano frio cria em nós consegue essa preciosa amizade. Essa é uma base para a alegria de uma pessoa ou de um povo. Isso não é única propriedade dos brasileiros, mas por serem um povo essecialmente religioso, e pacíficos, acabam sendo mais alegres.

Como dizia Cazuza:

O mundo vai aprender com o Brasil
O Brasil tem que aprender com o mundo
A ser menos preguiçoso
A respeitar as leis
Eles têm que aprender a ser alegres
E a conversar mais com Deus

(O mundo vai aprender com o Brasil, Cazuza/R. Rocket)


escrita2

Lutar com palavras é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.

(Carlos Drummond de Andrade)


De vez em quando aparece uns malucos com criatividade de juntar em uma música, conto, história coisas do cotidiano que poderiam passar despercebidas.  Palavras de coisas simples com uma máscara de dar susto, um embaralhado de letras que trazem à tona palavras esquisitas e exdrúxulas, uma complicação só. Mas que sai do lugar comum. São um excelente achado,  num repertório de hoje que só se fala amor, dor, paixão… essas coisas de sempre.

Tem compositores que buscam vencer desafios e colocam a cabeça para funcionar. De repente chega uma idéia e pousa nessas mentes privilegiadas e depois de concebida um boa idéia o restante é produzi-la. É um processo as vezes dolorido, como se dá numa concepção e não é pleonástico falar nesses termos porque o processo criativo da mente se assemelha com a gestação humana. A idéia cresce, cresce a nasce, aí precisa ser alimentada, educada, cuidada. Aí cresce e ganha o mundo.

Por exemplo, lembra de alguma música com a palavra paralelepípedo? mas dá para colocar esse palavrão numa letra metrificada? Veja o que fez o mestre Chico:

Vai passar, nessa avenida o samba popular

cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai

se arrepiar…

(Vai Passar, Chico Buarque)

Ou será que a plavra emporcalhada caberia numa poesia ou música. Mais uma vez Chico Buarque. Essa letra eu gostaria de colocar inteiro, pois é bem genil embora desconhecida:

Por que creceste, curuminha
Assim depressa, e estabanada
Saíste maquiada
Dentro do meu vestido
Se fosse permitido
Eu revertia o tempo
Para viver a tempo
De poder

Te ver as pernas bambas, curuminha
Batendo com a moleira
Te emporcalhando inteira
E eu te negar meu colo
Recuperar as noites, curuminha
Que atravessei em claro
Ignorar teu choro
E só cuidar de mim

Deixar-te arder em febre, curuminha
Cinquenta graus, tossir, bater o queixo
Vestir-te com desleixo
Tratar uma ama-seca
Quebrar tua boneca, curuminha
Raspar os teus cabelos
E ir te exibindo pelos
Botequins

Tornar azeite o leite
Do peito que mirraste
No chão que engatinhaste, salpicar
Mil cacos de vidro
Pelo cordão perdido
Te recolher pra sempre
À escuridão do ventre, curuminha
De onde não deverias
Nunca ter saído

(Uma canção desnaturada, Chico Buarque)

Mas o grande mestre das palavras bissexdrúxulas é Augusto dos Anjos que quando eu era criança, tomei um susto ao comprar um livro dele (aliás o único que ele lançou na sua curta vida) e abrir na primeira página.  Aquilo mais parecia uma descrição de análise cadavérica de um velho médico legista.  Eis o poema (em forma de perfeito soneto) que me refiro.

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância…

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas –

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

Voltando à música brasileira, já que estamos no fundo do poço mesmo, então veja essa lista de agradar qualquer hipocondríaco, extraída da mente esquisita e criativa de Arnaldo Antunes.

arnaldo-antunes

O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa…

Peste bubônica
Câncer, pneumonia
Raiva, rubéola
Tuberculose e anemia
Rancor, cisticircose
Caxumba, difteria
Encefalite, faringite
Gripe e leucemia…

E o pulso ainda pulsa
E o pulso ainda pulsa

Hepatite, escarlatina
Estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo
Esquizofrenia
Úlcera, trombose
Coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes
Asma, cleptomania…

E o corpo ainda é pouco
E o corpo ainda é pouco
Assim…

Reumatismo, raquitismo
Cistite, disritmia
Hérnia, pediculose
Tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifóide
Arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie
Câimba, lepra, afasia…

O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco

(O Pulso, Arnaldo Antunes)

Bem, tem mais, mas acho que chega de loucura por hoje, e como dizia o velho Augusto dos Anjos:

Vem da psicogenética e alta luta

Do feixe de moléculas nervosas,

Que, em desintegrações maravilhosas,

Delibera, e depois, quer e executa!

Bom dia, tristeza

Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

( Bom Dia, Tristeza  Vinícius de Moraes/Adoniran Barbosa)

uma pausa para refletir...

Dona tristeza

A lista tirada do fundo da gaveta.

A lista tirada do fundo da gaveta.

Esse dias encontrei num velho armário uma pasta cheia de papéis bem amarelados com coisas que havia escrito há 7 e 8 anos atrás. Um livro não publicado, poesias, contos meio esquisitos, desenhos, músicas… quanta coisa eu descartaria de tudo isso, quanta coisa eu me arrependo de não ter publicado sequer.

Então, hoje pensei fazer uma lista, incluir aquilo que me faz ser quem sou. O fato é que como a gente vai mudando todo dia, fico pensando nas mudanças acumuladas em 10 anos.  Será que em 10 anos qualquer pessoa se transforma num ser totalmente novo?

Bem, o que já ví é que a maioria até muda em muitas coisas, mas conserva em sí um certo âmago, um ponto básico que permace o mesmo e vence as lapidações dos anos. De fato depende muito dos nossos sonhos a aí das decisões que tomamos para alcança-los.

Pois é, nessa lista eu coloco tudo que considero mais valioso, o que essa pessoa chamada eu  curte, o que descarto, o que faz minha cabeça, o que tem cheiro de doce o que cheira a distância,  e aí, coloco lá guardadinho numa gaveta e protegido das traças. Aí então, passa o tempo e um dia eu encontro a lista alí, mais amarelada, tavez um pouco mais apagada, por que papel é assim mesmo, e a gente olha para trás e vê o que mudou na nossa cabeça, de lá para cá ou de hoje para lá.

Como posso começar? Lembro uma música do Oswaldo Montenegro, onde ele diz o que colocaria na lista dele:

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais…
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar…
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

(A lista, Oswaldo Montenegro)

Depois disso você repassa as palavras e vê onde estão as mudanças. Será que mais em mim mesmo ou então nas coisas fora do meu domínio? Verdade que o tempo, ou mesmo os caminhos que se traçam ou traçamos com nossas decisões são diferentes para pessoas e pessoas. Parece que a vida é mais bondosa com uns, parece que mais cruel com outros. Tem influência de nossas escolhas, tem influência de um vento traiçoeiro desses que andam por aí e viram barcos e destroem pontes.

Aldir Blanc imaginou ou quem sabe viveu um encontro desses, de alguém que colheu melhores frutos e de repente encontra com aquele amigo que  a vida não teve assim tanto trato. O samba é genial, tem uma interpretação do MPB 4, tipo samba de breque que  capta bem o sentido descontraído, embora reflexivo, da letra:

- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- Um ano ou mais…
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor
- A vida é um dilema
- Nem sempre vale a pena…
- Pô…
- O que é que há?
- Rosa acabou comigo
- Meu Deus, por quê?
- Nem Deus sabe o motivo
- Deus é bom
- Mas não foi bom pra mim
- Todo amor um dia chega ao fim
- Triste
- É sempre assim
- Eu desejava um trago
- Garçom, mais dois
- Não sei quando eu lhe pago
- Se vê depois
- Estou desempregado
- Você está mais velho
- É
- Vida ruim
- Você está bem disposto
- Também sofri
- Mas não se vê no rosto
- Pode ser…
- Você foi mais feliz
- Dei mais sorte com a Beatriz
- Pois é
- Pra frente é que se anda
- Você se lembra dela?
- Não
- Lhe apresentei
- Minha memória é fogo!
- E o l´argent?
- Defendo algum no jogo
- E amanhã?
- Que bom se eu morresse!
- Prá quê, rapaz?
- Talvez Rosa sofresse
- Vá atrás!
- Na morte a gente esquece
- Mas no amor agente fica em paz
- Adeus
- Toma mais um
- Já amolei bastante
- De jeito algum!
- Muito obrigado, amigo
- Não tem de quê
- Por você ter me ouvido
- Amigo é prá essas coisas
- Tá…
- Tome um cabral
- Sua amizade basta
- Pode faltar
- O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará

(Amigo é pra essas coisas, Silvio Silva Júnior/Aldir Blanc)

Ou então aqueles dois amigos que um dia, num furtivo momento,  estacionam lado a lado enquanto o sinal está fechado. Aí um olha para o lado e vê aquele amigo de 10 anos atrás. Como seria uma conversa assim?

Olha como Paulinho da Viola descreve:

- Olá, como vai ?
- Eu vou indo e você, tudo bem ?
- Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
- Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe …
- Quanto tempo… pois é…
- Quanto tempo…
- Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
- Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
- Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
- Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
- Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)
- Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
- Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
- Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
- Pra semana
- O sinal …
- Eu espero você
- Vai abrir…
- Por favor, não esqueça,
- Adeus…

(Sinal Fechado, Paulinho da Viola)

Interessante como até as conversas mudam, parece que na música de Paulinho da Viola, a mudança está na gente, a gente apressa vida, some na poeira das ruas… Mas esse é o rio que a gente mergulha sem ver a correnteza, essa é a vida.

A palavra é, o amor de quem eu tratei bem, amei naquele tempo, no tempo dos velhos papéis guardados, não se perdeu. A vida que das mãos escorre, na lembrança de um amor amado, ainda é viva e por isso enquanto guardarei a lista das coisas de hoje não guardarei meu coração. Ele nao pode amarelar, porque dele me vêm as melhores lembranças.

Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta…

(A fruta aberta, Thiago de Mello)

vida, vento, vela, leva-me daqui.

vida, vento, vela, leva-me daqui.

Vida, vento, vela, leva-me daqui!

Nessa semana, faleceu o autor dessa frase, colocada por Belchior na famosa Mucuripe, o genial Augusto Pontes. Cearence nato. Gênio desses que pousam a cada década no planeta Terra.

Lembro dele no Tota uma vez que toquei por lá,  gente simples, lembrava até meu querido pai, a pele meio avermelhada, a camisa aberta. Dizem que ele, jornalista, publicitáro, ex secretário de Cultura do Estado é autor de frases e histórias super criativas e gostava de atribuir a outros. Fazia isso tão bem que alguns até acreditavam. Na época ele estava  numa mesa, tomando uísque e disse um verso haikai que anotei depois de pedir para ele repetir: Era mais ou  menos assim:

A cultura em álcool imersa

lodo dissipa

e dispersa

Típico de gênio.

Mas voltando ao vida, vela, leva-me daqui, mais parece uma filosofia de vida.

Fico pensando que a vida é realmente um mar de ondas inconstantes, calmarias que dão medo, vagas que parece vão cobrir o incauto navegante e de repente a gente olha em volta e se vê perdido na imensidão de temores.

Quanto mais a gente entra no mar, mas fácil se perder, mais nos tornamos pequenos, dependentes, deslumbrados… a natureza se agiganta.

(Onde moro há muitos pescadores. Já conheci muita gente, muitos ateus, agnósticos, edonistas… mas nunca conheci um pescador ateu.)

Lulu Santos, que não é cearence, nem pescador (embora se defina Descobridor dos Sete Mares), muito menos gênio, falou de uma coisa que hoje me veio a mente.

Ele disse sobre um certo alguém:  ‘complicação tão fácil de entender. ‘ O que pode causar essa tal complicação? Ele mesmo diz: ‘Quando um certo alguém cruzou o seu caminho e mudou a direção… ‘

Pois é, traçamos tantos caminhos, criamos estradas, projetamos um mundo ou mesmo deixamos a vida, o vento e um barco que seja nos levar, e aí um avião, trem ou seja lá dessas coisas que o homem inventou para separar os outros, leva tudo para longe. Uma onda vem e muda a direção do nosso barco.

Sei lá, já fiquei algumas vezes parado no aeroporto olhando para o céu, um avião que se vai e leva alguém querido.

Toda vez lembro dum sentimento parecido traduzido por Djavan (esse sim, Gênio) na música a Rota do Indivíduo:

“Restos de sonhos sobre um novo dia
Amores nos vagões, vagões nos trilhos
Parece que quem parte é a ferrovia..”

( A rota do indivíduo, Djavan e Orlando Moraes)

ou então Olavao Bilac:

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

(Nel mezzo del camin, Olavo Bilac)

E a gente fica assim suspenso, meio sem rumo. Se antes soubesse  que tipo de delírio se sente nessas horas, da incerteza do futuro quebrado. Quando toda água parecia ser da mesma chuva, aí se descobre que na verdade ela vem dos nossos próprios olhos.

Cazuza, profundo conhecerdor de delírios, entenderia bem o sentimento:

‘O tempo vai dizer
Se o que espero me interessa
Se eu levo a vida
Ou se é ela que me leva’

(Maioridade, Cazuza)

Pois é, não a vida, o vento, a vela que nos leva. A gente fica parado e tudo é que vai passando. Caminhos, pessoas, planos, dias, alegrias e tristezas.

O mundo está passando, tem gente que passa com ele. Eu não quero,  pois lá na frente tem um abismo. Deixa estar aqui, é bom ver a paisagem passando na janela do trem e não pensar que quem acelera com pressa somos nós. Ou então, andar no carro em dias chuvosos e pensar que são os pingos da chuva que passeiam nos vidros. Os pingos vão desenhando linhas…

Não acredito em destino, apenas nas linhas que trago na mão.

Já dizia Gonzaguinha:
É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração

(Caminhos do Coração, Gonzaguinha)

grande Gonzaguinha, triste a vela que tão cedo te levou como levou o ilustre Augusto Pontes, que também disse: Eu sou apenas um rapaz, latino americano… apenas eu. A pé. Só. A pessoa eu.

Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.

(Vida, louca vida, Cazuza)

Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre
O meu sorriso é por consolação
Porque sei conter para ninguém ver
O pranto do meu coração

CartolaCompreendi o erro de toda humanidade
Uns choram por prazer e outros com   saudade
Jurei e a minha jura jamais eu quebrarei
Todo pranto esconderei

O silêncio é um som natural. Alguém disse, acho que Rose Tremain, que a música é feita de silêncio.

Então por que não parar um minuto por dia e tentar escutá-lo?

Há algo no silêncio tão lindo, mas ninguém escuta, se ao menos eu pudesse parar e escutar essa canção fugaz. E não precisa ir tão longe, fugir das pessoas, da vida. Apenas parar e se escutar.

Falando em parar, lembro de um livro do Sítio do Pica Pau Amarelo  de Monteiro Lobato,  Viajem ao Céu, onde a Emília fala de um dia de lagarto.  Uma semana antes se fazia tudo o que se devia fazer e nesse dia era proibido fazer qualquer coisa, inclusive pensar. “Os cérebros deveriam ficar naquela modorra gostosa. Todos vivendo, só isso. Vivendo logicamente, dizia o Visconde de Sabugosa”

Será que de vez em quando não é bom tirar um “Dia de Lagarto”?

Apenas viver, ficar curtindo a existência e escutando essa maravilhosa canção do silêncio?

É certo que depois a gente volta a realidade, mas porque não? Quem sabe depois a realidade se reapresente com outros sons que não ouvíamos antes, com outras cores que não nos era possível enxergar? A cor do silêncio é uma cor eufônica e idônea. Mais ou menso assim, algo limpo e puro. Como dizia uma banda interessantemente chamada A Cor do Som na música Gosto do prazer:

“Amazônia, Amazônia
Tão idônea a cor”

lagartoesquerdo

o dia de lagarto

O certo é que é preciso parar, ter uma hora de contemplação e assombro com as coisas simples dessa vida. Celebrar a existência silenciosamente sem precisar exatamente realizar grandes coisas ou qualquer coisa.

O filósofo Arthur Schopenhauer, homem de nome complicado, num livro mais complicado ainda, Sobre a quádrupla raiz do princípio da razão suficiente, fala a seguinte sentença:

“As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo.”

Mas usar o tempo não significa exatamente construir alguma coisa, alguma idéia ou teoria, escrever um blog por exemplo… usar o tempo pode ser parar e se construir silenciosamente.

Como dizia Cartola, numa música do genial sambista Candeia:
“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar…”

E é tão preciso se encontrar como disse Cartola, que com certeza se encontrava e se sabia ser, que a música, o som, a letra, brotam justo desses momentos.

Por isso que outro músico que acho ser genial, o português Pedro Abrunhosa, pianista e poeta de raro talento, diz numa música chamada silêncio:

“Silêncio é a palavra que habita, que palpita
Toda a música que faço.
É a cidade onde aportam os navios
Cheios de sons, de distância, de cansaço.”

Pois, pois…

Logo percebo que o tempo passa  e tem seu próprio passo. Por que então precisamos passar mais rápido que ele?

Caricatura de Fernando Pessoa

Caricatura de Fernando Pessoa

Análise

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa, 12-1911

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